Buddhadasa Bhikkhu - Tributes
O Legado do Monge Reformista Thailandês
contado por Phra Phaisan Visalo, Bangkok Post, 28 de maio, 2006
A obra do monge que construiu Suan Mokkh continua
Suan Mokh, Thailândia -- Com apenas Mathayom 3 (equivalente ao terceiro ano do ensino fundamental) e treinamento clérigo considerado bem básico, Phra Ngerm Inthapanyo, então com 26 anos, deu o que mais tarde ficou conhecido como um enorme passo histórico no Buddhismo thailandês. Em termos concretos, ele fundou Suan Mokkh; em termos menos tangíveis, o monge reformista introduziu um novo Buddhismo que é relevante atualmente e ao mesmo tempo mantém a prática dos tempos de Buddha.
Phra Ngerm, mais tarde conhecido como Buddhadasa Bhikkhu, representou um dos papéis mais decisivos na reforma do Buddhismo thailandês para que este se relacionasse de forma inteligente com o mundo moderno. Muitos thailandeses instruídos, fortemente influenciados por escolas de pensamentos ocidentais, também voltaram às raízes buddhistas graças aos ensinamentos do monge.
Tecnicamente, Buddhadasa pode não ter tido muita educação formal, mas seu conhecimento sobre as ciências modernas, tanto físicas quanto metafísicas, foi tão profundo, que ele podia ver suas falhas e usá-las para explicar o Buddhismo de forma eloqüente. Uma vez, Buddhadasa não passou em um exame sobre as escrituras pali, e ainda assim sua compreensão do cânon buddhista penetrava no cerne da religião. Ele conseguia fazer com que os ensinamentos do Senhor Buddha fossem compreendidos por seus contemporâneos diretamente no coração de seus egos. Suas críticas sobre a sociedade eram sagazes e suas contribuições para a educação moderna, inimitáveis.
Além de juntar o velho e o novo, o monge reformista também funcionou como ponte entre os dois lados dentro do Buddhismo Theravada. A influência das tradições do Sri Lanka resultou em divisão entre os praticantes buddhistas: um, reforça o conhecimento teórico; o outro, a disciplina austera. Em Suan Mokkh, porém, essas duas correntes se fundem em uma só. Lá, os monges seguem a prática tradicional de "monges da floresta": meditam em meio à natureza, levam uma vida espartana e frugal, "comendo como um passarinho, tomando banho no córrego, dormindo em chiqueiro, ouvindo o barulho de mosquitos". Ao mesmo tempo, eles também estudam o Tipitaka e têm aulas regulares sobre o dharma, ministradas pelo venerável monge.
No Phuttasasana, uma publicação religiosa elaborada por Buddhadasa e seu irmão, Dhammadasa Panich, dois capítulos indispensáveis eram sobre uma tradução thailandesa do Tripitaka e a prática do dharma. Em retrospecto, Buddhadasa foi o produto de um estudo sério das escrituras e da prática rigorosa. Durante seus retiros intensivos na floresta, ele também estudou o cânon, sozinho, de forma diligente. No primeiro ano de fundação de Suan Mokkh ele completou um livro chamado In the Footsteps of the Enlightened One ("Seguindo as Pegadas do Iluminado"), seguido de Buddha's Life in His Own Words ("A Vida do Buddha em Suas Próprias Palavras") e The Noble Truths in Buddha's Own Words ("As Nobres Verdades nas Próprias Palavras do Buddha").
Além disso, o falecido monge expandiu sua pesquisa para incluir um estudo sobre o Buddhismo Mahayana e o Zen. Na verdade, ele espertamente aplicou os ensinamentos Zen – Buddhadasa traduziu sozinho o conhecido The Sutra of Wei Lang ("O Sutra de Wei Lang") e The Teachings of Huang Po ("Os Ensinamentos de Huang PO") – para levar as pessoas ao coração do Buddhismo. Ele também utilizou diversas histórias Zen e charadas de forma efetiva. "Uma mente vazia em um corpo ocupado", "O rio está serpenteando, a água, não" ou "Polir um telha para virar um espelho" são exemplos do que Buddhadasa utilizou deliberadamente para incitar as pessoas a pensarem mais seriamente.
Ele foi mais longe ao introduzir a pintura espiritual que ensina sobre o Paticcasamuppada (a lei de originação co-dependente ou co-evolução), um aspecto integral do Buddhismo Vajrayana.
No método de Buddhadasa, a prática do dharma transcendeu também para abranger o dia-a-dia. Para ele, praticar o dharma não significa sessões isoladas, solitárias, de olhos fechados na floresta ou em um quarto. Podemos trabalhar e ao mesmo tempo praticar o dharma. Suas palavras mais citadas são: "Trabalhar é praticar o dharma". A maioria das pessoas pode buscar o sucesso e tentar terminar seu trabalho o mais rápido possível. O monge, porém, ensina as pessoas a trabalharem de forma atenta, a viverem no presente e não se apegarem aos resultados. Ele comparou kilesa (impurezas, como cobiça, raiva e ilusão) a um tigre. Trabalhar é como brincar com a criatura – quanto mais ele "brinca" conosco, mais aprendemos sobre seu poder e suas fraquezas, de forma que possamos mantê-lo sob controle. Se não trabalhamos com ele, nunca conheceremos o tigre e nem saberemos como controlá-lo e vencê-lo.
Quando trabalho e dharma se tornam um, o "secular" e o "espiritual" deixam de ser dois reinos separados. A maioria dos buddhistas tem a tendência de ver o secular – e todas as realizações mundanas – exclusivamente como assuntos de família e o espiritual como se tratasse apenas da busca da libertação pelos monges. Buddhadasa, ao contrário, acreditava que os chefes de família também tinham de treinar suas mentes: a vida secular é cheia de frustrações e tristezas e uma mente sem treinamento sofrerá infinitamente. Assim, Buddhadasa encorajava os monges de Suan Mokkh a deixarem sua cabana para fazer tarefas manuais, ao mesmo tempo em que tentava guiar os seguidores leigos a trabalhar com uma "mente vazia", isto é, livre de desejos e ego. Ele freqüentemente dizia: "Você só ficará livre do sofrimento quando viver, comer, trabalhar, fazer qualquer coisa sem uma mente apegada, sem isso de eu e meu." A máxima funciona tanto em nível pessoal quanto social.
Assim, não é surpresa que Buddhadasa sempre destacou a moralidade como base da política, economia e desenvolvimento. Em uma de suas aulas, "Dharma e Política", ele enfatizou que o homem secular e o espiritual são iguais.
E, realmente, quando vistos profundamente, eles são literalmente iguais. Da mesma forma, o dharma não pode ser separado para os níveis "mundano" e "supra-mundano". A pessoa pode viver no mundo e acima dele. Um chefe de família pode levar uma vida normal, mas com sua mente livre das amarras do sofrimento, das incertezas, do domínio do materialismo. Ao enfrentar perdas, uma mente assim não será influenciada, porque compreende como o mundo funciona. Esse estado de paz mental pode ser chamado de nirvana. Buddhadasa costumava dizer: "O dharma para os leigos significa não se deixarem afogar, mas tirarem a si próprios do buraco para serem felizes, liberados e, finalmente, atingirem o nirvana.
Em outras palavras, qualquer um de nós pode atingir o nirvana mesmo nesta existência. Não há necessidade de se esperar pelo próximo renascimento. Por muito tempo o conceito de nirvana tem sido visto como algo remoto, feito para os poucos que viraram as costas para o mundo. Buddhadasa trouxe de volta ao presente os ensinamentos sobre nirvana e dharma supra-mundano. É verdade que nosso mundo é cheio de frustrações e todos os tipos de sofrimento. Também é verdade que "a extinção do fogo está no fogo; a extinção do sofrimento está no sofrimento. Nirvana pode ser encontrado no ciclo do samsara".
Buddhadasa Bikkhu nos tornou conscientes de que o samsara não pode ser separado do nirvana. Ele está nos esperando lá – o caminho da libertação "temporária" ou permanente.
Em um mundo polarizado, Buddhadasa transcendeu a tudo isso. Ele nos levou a redescobrir "o Buddha" dentro de nós. Muitas pessoas têm descoberto que o "Buddha" pode ser encontrado bem no meio do nosso coração, que todos nós podemos nos tornar o Desperto, O Que Sabe, O Alegre.
Buddhadasa Bhikkhu é um sábio verdadeiro que reavivou o Buddhismo para que se tornasse mais uma vez rico, profundo e significativo para a sociedade thailandesa. Ele também reavivou nossa própria humanidade. Em um mundo que vê as pessoas como rentáveis animais egoístas, robôs, seres cujos traços genéticos podem ser arbitrariamente manipulados, é de grande importância restabelecer nossa humanidade acima da pilhagem deste mundo material.
No centenário de nascimento de Buddhadasa Bikkhu, há muitas coisas para serem lembradas. O que nunca devemos esquecer, porém, é o que toda sua vida de ensinamentos nos mostrou: quem somos e o quanto podemos fazer.