Buddhadasa Bhikkhu - Tributes
Unidade Na Diversidade
Por Vasana Chinvarakorn, fotografia principal por Smith Suthibut, Bangkok Post, 28 de agosto de 2006.
Bangkok, Tailândia - O rugido de bombas. O macabro, penetrante odor de morte. No extremo Sul e pelo globo inteiro, crescem continuamente os conflitos em nome da religião.
Fluxos
diferentes, uma cachoeira: No cerne da verdade, todas as
religiões ensinam as
pessoas a não serem egoístas e não se
apegarem às ilusões da vida.
Mas
havia
uma amizade notável que rompia limites religiosos: A amizade
entre Buddhadasa
Bhikkhu e um muçulmano devoto chamado Haji Prayoon
Vadanyakul.
Nascido
em uma família muçulmana, Haji Prayoon era bem
conhecido entre seus pares por
sua seriedade na prática de sua religião. Mas os
seus interesses não eram
restritos ao Islã. Havia sido enviado para uma escola
cristã, e mais tarde fez
amizade com vários buddhistas. Um dia ele decidiu viajar ao
Suan Mokkh Forest
Monastery para visitar Buddhadasa Bhikkhu. Ele viajou com um monge
chamado Phra
Kuang Muttipatto. Naquele tempo, em 1955, a jornada para Chaiya
não era nada
fácil.
"Nós
tivemos que pegar um trem de Bangkok e chegamos em Chaiya às
4:00h da manhã.
Phra Kuang e eu tivemos que esperar na estação
até estar claro o suficiente.
Então caminhamos através dos campos e florestas.
Era a estação chuvosa, e de
vez em quando tinhamos que atravessar águas chegando
até a nossos peitos. Mas
eu nunca pensei em desistir.”
"Eu
costumava subir o Phu Kradueng em Loei quando ainda era uma selva.
Aquilo era
realmente difícil - mas no topo das colinas, o ar fresco e
puro me fazia sentir
como se eu estivesse em outro mundo, e todo o cansaço ia
embora.”
"Eu
tive que caminhar muito tempo antes que alcançasse Suan
Mokkh, mas não me
sentia nada cansado. Eu fui confortado pelo pensamento de que eu iria
obter um
discernimento do Dhamma de um monge cujas idéias eram muito
diferentes do que
eu tinha ouvido, como se as dele pertencessem a um outro mundo".
[Uma
foto
de arquivo de Buddhadasa, Haji Prayoon Vadanyakul e outro
venerável monge,
Luang Por Panyananda Bhikkhu.]
A
primeira reunião entre Haji Prayoon e Buddhadasa durou oito
horas.
"O
modo com que Tan Ajahn Buddhadasa examinava o Buddhismo, soava como se
ele
estivesse me guiando igualmente para a meta do
Islã.”
"A Verdade existe em ambas
as religiões,
mas faltam aqueles capazes de evidenciar que elas são uma e
o mesmo. A maioria
das pessoas mantém a sua guarda levantada durante um
diálogo inter-religioso.
Isso não é a verdadeira
educação. Eles tentam desacreditar-se uns aos
outros;
esse não é o caminho para a
compreensão mútua".
Naquele
mesmo dia, poder-se-ia dizer que Haji Prayoon encontrou um guia para
conduzi-lo
a uma verdade comum. Diferenças religiosas não
impuseram uma barreira mas, ao
invés, serviram para lhe ajudar a atingir a
essência da sua própria fé.
"O
tipo de Buddhismo sobre o qual eu aprendi era mundano, no
nível ético. Nada
especial. Mas tendo encontrado Tan Ajahn, lido e contemplado os seus
livros, eu
vim a entender a verdade última.”
"A
partir daquele dia, eu continuei estudando os seus livros e os
comparando com o
Corão, e fui ficando cada vez mais esclarecido. Eu
não vinha prestar-lhe homenagem
freqüentemente. Eu só vinha de vez em quando. Mas
havia este vínculo profundo.
Toda vez que eu o visitava, era como se viesse informar-lhe sobre meu
progresso
espiritual. Esta compreensão mútua me manteve
crescendo continuamente.”
"Eu
tento evitar dizer que as visões de Buddhadasa
são o certo. Caso contrário,
algumas outras escolas de pensamento poderiam me acusar de ser
presunçoso. Eles
poderiam dizer: 'Como você sabe que seu professor
está correto?' Prefiro dizer
que suas visões são sensatas e
razoáveis. Outras pessoas podem não concordar
comigo. Mas as suas visões do Buddhismo me ajudaram a
entender o Islã
corretamente.”
"Sendo
registrado como um muçulmano, eu posso expor os ensinos do
Islã. Mas se eu não
houvesse captado a essência do Buddhismo através
de Buddhadasa, eu poderia não
ter assimilado a essência do Islã tão
bem. Eu ainda teria memorizado os ensinos
que foram passados através da
tradição, mas sem ter descoberto qualquer
solução
real.”
"Os
muçulmanos gostam de embalar o sono das suas
crianças com uma pequena frase -
'La illaha ill-Allah' - a declaração da verdade
feita durante a oração. Eles
continuam recitando 'La illaha ill-Allah' repetidamente -
até que alcancem um
estado de concentração mental. Infelizmente, a
maioria das pessoas não entende
o significado essencial; elas normalmente traduzem isto como
'não há nenhum
outro Deus, senão Allah.”
"A
palavra 'Allah' consiste em três letras: A, L e H. A palavra
'Arahat' consiste
nas letras: A, R e H. Tipicamente, o L do Ocidente foi transformado em
R no
Oriente. Assim ‘elefante’ torna-se 'erawan'. E faz
com que ‘Ali', o Nobre,
torne-se 'Ariya' como em Ariyasaj, A Verdade Nobre.”
"Eu
discutia estes assuntos lingüísticos com outras
pessoas. Aqui eu repito isto
para aqueles que não ouviram falar deste
princípio. Allah é de fato Arahat. O
significado de Allah é mais amplo que Illaha que significa
'ídolos’, e Llah que
quer dizer 'não', ou 'não
faça’. A maior parte dos muçulmanos
toma Illaha como
significando coisas como esculturas, árvores e assim por
diante. Mas eu penso
que a palavra refere-se ao apegar-se àqueles
próprios objetos em seus corações.
Essas estátuas e árvores não
são sagradas por si mesmas.”
"Mas
quando as pessoas se agarram a tais objetos, estes se tornam objetos de
adoração. Se as pessoas não se agarram
a eles, eles não podem ser sagrados.
Estas coisas não têm o seu poder
próprio; são as pessoas que lhes dão
poder.
Então, illaha não se refere a esses objetos
externos, mas ao apego no coração
humano. Assim a senteça 'illaha ill-Alah’
expõe o não apegar-se a nada. Tal é o
estado de Allah, ou Arahat. Como isso é literalmente
idêntico ao coração do
Buddhismo que expressa a negação a qualquer
apego! Como eu não poderia dizer
então que a essência do Buddhismo é a
mesma do Islã"?
Quando
se
é capaz de captar a essência comum,
diferenças externas já não se
interpõem
como um problema. Por exemplo, Haji Prayoon continuou a praticar as
suas
orações rotineiras mesmo quando ele foi estudar o
Dhamma com Buddhadasa em Suan
Mokkh.
Ele
uma
vez relatou outra história sobre Buddhadasa:
"Tan
Ajahn falou para alguns de seus alunos que gostaria que eu fosse
à peregrinação
de haj. Ele não disse a mim pessoalmente, mas
alguém me falou que uma vez ele
disse: 'Se Khun Prayoon pudesse ir à haj, isso beneficiaria
grandemente a
religião’. Ele disse isso quando fui me despedir
dele. Originalmente ele queria
ir me dizer adeus no aeroporto de Don Muang. Mas os seus alunos
disseram que
ele estava preso a um outro compromisso. Caso contrário,
teria sido um evento
enigmático, um monge buddhista ter ido despedir-se de um
muçulmano partindo
para o haj.
"Eu
quero acentuar que eu não o vejo como um buddhista, nem ele
me vê como um
muçulmano. Ele normalmente diz que eu não
pertenço a qualquer grupo, que eu sou
alguém que realmente o conhece. É uma
questão de sermos dois companheiros
humanos.”
"Tan
Ajahn queria que todas as religiões se unissem para trazer
paz ao mundo. Ele me
disse uma vez: 'Khun Prayoon, trabalhemos juntos para unir as
religiões.' Eu
lhe falei que, no nível de costumes e
tradições, poderia não ser
possível. Por
exemplo, na morte, alguns grupos querem enterrar o corpo, outros grupos
querem
queimar o corpo. Mas no nível da verdade, embora
nós não a tenhamos unido, elas
já são uma e a mesma. São os
professores religiosos individuais que não
conseguem chegar à verdade. Não é o
caso que religiões não possam conciliar-se
se nós levamos o seu propósito como a meta, seja
isto no nível mundano ou
supra-mundano".
Haji
Prayoon foi uma força motriz propagando as idéias
de Buddhadasa de compreensão
inter-religiosa - pelos seus escritos, conversas e
doações - até o ponto que
alguns do seu grupo o acusaram de ser um haek khok (literalmente,
"desertor; rebelde").
"Eu
aceito que seja verdade. Eu precisa desertar porque quis ser liberto da
jaula.
Queria me tornar um ser humano livre. Porque eu quis me tornar humano,
eu tive
que debandar, caso contrário eu teria continuado como um
animal.”
"Esta
compreensão não é limitada
à coisa chamada religião, seja ela Buddhismo,
Cristianismo, Islã, Brahmanismo, Sikh e assim por diante.
É sobre compreender
que o Dhamma que não tem nenhum outro nome além
de Dhamma.”
"O
inimigo da religião é a ausência de
dhamma. As religiões não podem ser como
homens que remam em barcos diferentes e tentam competir uns com os
outros. Eles
têm que remar o mesmo barco e têm que se ajudar
mutuamente. Precisamos de
cooperação para salvar o mundo. Nós
temos que nos relacionar, ao invés de
brigar e disputar entre nós. Mas a religião, seja
qual for a que a pessoa
queira seguir, depende das suas preferências
individuais.”
"Sempre
que tomo parte em ajudar qualquer religião, eu mantenho um
único princípio:
Espalhar o Dhamma legítimo entre as pessoas, porque
é do que o mundo precisa
urgentemente - isso é tudo.”
"Quando
um monge vem residir por algum tempo na minha propriedade, onde
há muitas
árvores, eu só faço um pedido: Quando
lhe solicitarem objetos auspiciosos, por
favor, dêem para as pessoas o Dhamma do Senhor Buddha e
não algo supersticioso
como um amuleto. Caso contrário eu terei que lhe pedir que
parta. O Buddhismo
deve ser preservado, até mesmo em uma casa
muçulmana. E nós temos que fazer
isto seriamente para proteger o Buddhismo.”
"Toda
pessoa religiosa deve colaborar. Sempre que vemos o declínio
de qualquer
religião, temos que nos manifestar para corrigir
isto.”
"Aqueles
que ainda estão presos a velhas crenças e
valores, tenham cuidado para não
ficarem iguais aos dinossauros. Esta é a era de
computadores, da viagem
espacial. Nós temos que nos atualizar, caso
contrário seremos deixados para
trás.”
"Na
Thailândia, hoje em dia, o desenvolvimento de pensamentos e
prática progrediu à
fase onde há este ahimsa-kamma de
não-violência entre diferentes proponentes
religiosos. Eles compartilham idéias e ajudam a trazer paz
para sociedade, e
eventualmente para o mundo. Eu reconheço que isto
é um trabalho duro. Mas nunca
se renda. Este ideal já se realizou em Suan Mokkh, com Tan
Ajahn como o líder
do movimento. Esta missão será continuada pelos
seus estudantes, e muitos mais
que compartilharão dos seus ideais no futuro".
A
semente
de amizade plantada em 1955 continuou florescendo até o
final de suas vidas.
Coincidentemente, ambos faleceram no mesmo ano.
Buddhadasa
e Haji Prayoon não só nos ensinaram a entender
que religiões verdadeiras
somente diferem na superfície, mas em seu cerne, aspiram
à mesma meta.
Ambos
também conduziram as suas vidas mostrando que a amizade
entre diferentes
religiões é possível.
Eles
desbravaram o caminho. Nós os seguiremos?
Traduzido
de “100 Pessoas, 100 Lições de Dhamma,
100 Anos de Buddhadasa”, publicado no
centenário do nascimento de Buddhadasa Bhikkhu por Sukkapab
Jai.